Pátio
de estação de
estrada de ferro. Inaugura-se a linha férrea que estabelece o tráfego entre
Ilhéus e Itabuna. Pequena multidão em trajes domingueiros. A solenidade, que
antecede a viagem inaugural, é presidida pelo Coronel Antônio Pessoa que
representa o Governo do Estado da Bahia. A seu lado, além de Bento Berilo de
Oliveira (construtor da ferrovia) e de inúmeras autoridades municipais, estão os Coronéis Domingos Fernandes da
Silva, Misael Tavares, Henrique
Alves Ramiro Castro e Henrique Cardoso.
uma solenidade festiva e, logo após
o pipoca, de foguetes, sincronizado com
apitos da locomotiva, ouve-se a palavra do Coronel Antônio Pessoa.
CORONEL ANTÔNIO
PESSOA
(Discursando.) Este é um
dia histórico para Ilhéus. Nós, que aceitamos com orgulho o título de coronéis do cacau, mostramos agora
mais um dos resultados do nosso trabalho como responsáveis pela administração
do Município. E, com a ajuda do povo, depois que erguemos o prédio da Câmara,
os nossos esforços como que aumentam dia a dia. E, se fosse pedido um exemplo,
não existiria outro melhor que a inauguração mesma desta estrada de ferro.
Declaro inaugurada, pois, a estrada de ferro de Ilhéus.
Palmas
e aclamações entusiásticas. Os coronéis, após cumprimentarem efusivamente Bento
Berilo, formam um pequeno grupo. Á conversa, como acontece entre velhos amigos,
se torna informal. E quando Ramiro Castro se dirige a Bento Berilo.
CORONEL RAMIRO CASTRO
(Voz alta.) Que
trabalhão, senhor Bento Berilo. Seis anos sem descanso. Mas, que valeu a pena, valeu. (Pausa.) Quando partiremos, no
trem, para Itabuna?
BENTO BERILO
Agora mesmo, dentro de dez minutos. E agora, temos
realmente o progresso.
CORONEL HENRIQUE CARDOSO
(Intervindo.) O progresso?
com a ferrovia,
CORONEL ANTÔNIO PESSOA
O progresso como que escolheu
este ano de 1911 para se encontrar com Ilhéus. Que o diga o nosso Misael
Tavares, tão partidário da estrada
de ferro quanto do porto.
CORONEL MISAEL TAVARES
(Voltando-se para Antônio
Pessoa.) E também da luz elétrica. (Pausa) A luz a gás é coisa do passado.
CORONEL ANTÔNIO PESSOA
(Alto, como a chamar a atenção
de todos.) Este ano mesmo, 1911, viu o Município assinar o contrato
para a instalação da luz elétrica em Ilhéus. Em breve, assim como hoje inauguramos a
estrada de ferro, também inauguraremos a luz elétrica.
E o porto?
CORONEL DOMINGOS FERREIRA DA
SILVA
BENTO BERILO
(Voz alta.) A esta
pergunta respondo eu. A Intendência Municipal firmou comigo o contrato de
construção do porto. Isso foi em abril e, portanto, há menos de
quatro meses. (Pausa.) Tudo o que
posso dizer é que, na próxima semana, serão iniciadas as obras do primeiro
trecho do cais.
CORONEL ANTÔNIO PESSOA
(Retomando a palavra.) A estrada
de ferro, a luz elétrica e o
porto. E tudo em 1911
CORONEL RAMIRO CASTRO
(Intervindo, a voz alta.) É para que se veja que nós, os coeonéis, não sabemos apenas cabrucar as matas e plantar cacau. E, se criamos
tantas vilas que logo serão cidades, de nossa cidade de ilhéus já fizemos uma
capital. (Pausa.) Quase dizia a capital de uma civilização, a
civilização do cacau.
Ouve-se, no instante, um apito do trem e, desta vez,
muito prolongado. Bento Berilo consulta o relógio e, a segurar o braço do Coronel Antônio Pessoa, convida a
todos.
BENTO BERILO
(Voz muito alta, gritante.) Vamos, senhores, que a viagem
vai começar. E Itabuna já nos espera.
Os coronéis se encaminham para a estação como conduzidos
por Bento Berilo. A pequena multidão se vai desfazendo aos poucos.
Texto do Livro: Autos dos Ilhéus de Adonias Filho.
Pesquisa: José Rezende Mendonça
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