terça-feira, 8 de janeiro de 2013

OS CORONÉIS DO CACAU E A ESTRADA DE FERRO





OS CORONÉIS 

Época: 1911 

Pátio de estação de estrada de ferro. Inaugura-se a linha férrea que estabelece o tráfego entre Ilhéus e Itabuna. Pequena multidão em trajes domingueiros. A solenidade, que antecede a viagem inaugural, é presidida pelo Coronel Antônio Pessoa que representa o Governo do Estado da Bahia. A seu lado, além de Bento Berilo de Oliveira (construtor da ferrovia) e de inúmeras autoridades municipais, estão os Coronéis Domingos Fernandes da Silva, Misael Tavares, Henrique Alves Ramiro Castro e Henrique Cardoso. uma solenidade festiva e, logo após o pipoca, de foguetes, sincronizado com apitos da locomotiva, ouve-se a palavra do Coronel Antônio Pessoa. 


CORONEL  ANTÔNIO PESSOA 
(Discursando.) Este é um dia histórico para Ilhéus. Nós, que aceitamos com orgulho o título de coronéis do cacau, mostramos agora mais um dos resultados do nosso trabalho como responsáveis pela administração do Município. E, com a ajuda do povo, depois que erguemos o prédio da Câmara, os nossos esforços como que aumentam dia a dia. E, se fosse pedido um exemplo, não existiria outro melhor que a inauguração mesma desta estrada de ferro. Declaro inaugurada, pois, a estrada de ferro de Ilhéus. 

Palmas e aclamações entusiásticas. Os coronéis, após cumprimentarem efusivamente Bento Berilo, formam um pequeno grupo. Á conversa, como acontece entre velhos amigos, se torna informal. E quando Ramiro Castro se dirige a Bento Berilo.
CORONEL RAMIRO CASTRO

(Voz alta.) Que trabalhão, senhor Bento Berilo. Seis anos sem descanso. Mas, que valeu a pena, valeu. (Pausa.) Quando partiremos, no trem, para Itabuna? 

BENTO BERILO

Agora mesmo, dentro de dez minutos. E agora, temos realmente o progresso. 
CORONEL HENRIQUE CARDOSO 
(Intervindo.) O progresso?
com a ferrovia,

CORONEL ANTÔNIO PESSOA 
O progresso como que escolheu este ano de 1911 para se encontrar com Ilhéus. Que o diga o nosso Misael Tavares, tão partidário da estrada de ferro quanto do porto.
CORONEL MISAEL TAVARES
(Voltando-se para Antônio Pessoa.) E também da luz elétrica. (Pausa) A luz a gás é coisa do passado.
CORONEL ANTÔNIO PESSOA
(Alto, como a chamar a atenção de todos.) Este ano mesmo, 1911, viu o Município assinar o contrato para a instalação da luz elétrica em Ilhéus. Em breve, assim como hoje inauguramos a estrada de ferro, também inauguraremos a luz elétrica.
E o porto?
CORONEL DOMINGOS FERREIRA DA SILVA
BENTO BERILO
(Voz alta.) A esta pergunta respondo eu. A Intendência Municipal firmou comigo o contrato de construção do porto. Isso foi em abril e, portanto, há menos de quatro meses. (Pausa.) Tudo o que posso dizer é que, na próxima semana, serão iniciadas as obras do primeiro trecho do cais.
CORONEL ANTÔNIO PESSOA

(Retomando a palavra.) A estrada de ferro, a luz elétrica e o 
porto. E tudo em 1911
CORONEL RAMIRO CASTRO

(Intervindo, a voz alta.) É para que se veja que nós, os coeonéis, não sabemos apenas cabrucar as matas e plantar cacau. E, se criamos tantas vilas que logo serão cidades, de nossa cidade de ilhéus já fizemos uma capital. (Pausa.) Quase dizia a capital de uma civilização, a civilização do cacau. 


Ouve-se, no instante, um apito do trem e, desta vez, muito prolongado. Bento Berilo consulta o relógio e, a segurar o  braço do Coronel Antônio Pessoa, convida a todos. 


BENTO BERILO 
(Voz muito alta, gritante.) Vamos, senhores, que a viagem 
vai começar. E Itabuna já nos espera. 


Os coronéis se encaminham para a estação como conduzidos por Bento Berilo. A pequena multidão se vai desfazendo aos poucos. 

Texto do Livro: Autos dos Ilhéus de Adonias Filho.
Pesquisa: José Rezende Mendonça

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