terça-feira, 15 de janeiro de 2013


LIVRO: PONTAL ONTEM & HOJE - MEMÓRIAS
AUTOR: José Rezende Mendonça
CAPÍTULO – III
AS LANCHAS

(Porto das Lanchas – Jorge Amado. 1923 – Acervo Marilson Bittencourt)

Eu acho que poucos bairros de Ilhéus tenham tantas histórias pra contar. O Pontal por não estar totalmente inteirado até 1966 com o centro da cidade e com os demais bairros, aqui era como se fosse outra cidade, até nos chamavam de “índios”. Quando criança, ouvi dizer de uns dois casos de rapazes que moravam do outro lado, terem que retornar a nado, principalmente quando tentavam namorar alguma “menina” do bairro, quando esta “menina” já era cobiçada por um pontalense.


Até 15 de agosto de 1966, o bairro do Pontal interligava-se com o centro da cidade via travessia em embarcações tipos: lanchas, “besouros”, e canoas. E nada tão oportuno começar com uma foto de 1923, tirada no Porto das Lanchas e nada menos com Jorge Amado com 11 anos, ao lado de seus pais, o coronel João Amado de Faria e sua mãe Eulália Leal Amado.

As lanchas maiores acomodavam até oitenta passageiros, já os “besouros” comportavam aproximadamente quatro pessoas e eram mais usados como fretamento, por aqueles que não queriam aguardar os horários estabelecidos de saídas das lanchas e que tinham um poder aquisitivo maior.

As canoas eram utilizadas para o transporte de cargas, travessia de carros e caminhões, ou ainda eram utilizadas como último recurso pelos “atrasadinhos”, que não partiam até as 23 horas, limite de encerramento na travessia por lanchas. Dos donos e ou condutores de “besouros” lembro-me de Mané Paquete, Zé Gato, Arlindo, Ednaldo (Nego Frequete) e de canoas os senhores Joventino, José Domingos (Pernalonga), Antenor, Alcídes e Rodão.

 (Travessia de Lancha. 1962 – Acervo: Marilson)


As lembranças nos levam a citar as lanchas com suas denominações e características: UBAITABA, NÚBIA, BAIANA, IRAPUAN, APORÁ e CRISTALEIRA; movidas à gasolina, excetuando a “Cristaleira”, que era movida a diesel e tinha suas laterais visuais (proteção contra chuva) toda em vidros, daí esta denominação, as demais eram protegidas por lonas. A Ubaitaba era a mais exuberante; a Irapuan a mais luxuosa, seus assentos eram acolchoados; a Baiana foi a única a pegar fogo no dia 25 de maio de 1963, num sábado, por volta das 12h30min, próximo a “boca da barra”, era como chamávamos o local em frente ao Cristo, na entrada da baía do Pontal. Nesse incêndio ficaram dois registros inesquecíveis – a bravura do Delegado de Policia de Ilhéus, o Sr. Oscar Armando de Souza Gallo (Dr. Gallo), que salvou principalmente crianças e mulheres com suas sacolas, colocando-as nas embarcações que vieram ao socorro e só pulando no mar quando seu paletó já estava em chamas, vindo a falecer 45 dias depois, não resistindo às queimaduras. O outro foi a coragem e determinação da jovem Olga Bezerra, de apenas 10 anos, filha de Moacir Bezerra, um caminhoneiro muito conhecido do bairro, que fez a travessia a nado até a praia do Pontal. Todos os demais passageiros foram resgatados por diversas embarcações.

Para colocar uma lancha em movimento era necessário contar com os seguintes profissionais: o proeiro (responsável pela atracação, colocação da “prancha” para embarque e desembarque, e ainda auxiliava os passageiros na subida e descida pela prancha das embarcações); o mestre (responsável pela condução da embarcação) e o motorista/cobrador (responsável pela mecânica do motor e ainda por algum tempo como cobrador das passagens ou recebedor dos bilhetes, quando vendidos nas bilheterias no porto das lanchas).

Profissionais dessa época: Proeiros: Deraldo, Toroco, Manezinho, Zé Biquinha, Chiquinho, Ailton, Luizão, Bananal. Mestres: Didiel, Matias, Antonio Lobisomem, Afrânio, Sabino, Antonio Bebeca, Almiro (Mestre Areia). Motoristas/Cobradores: Berlito, Zequinha Paquete, João, Toninho, Creone, Giru, Zé Gato.

Quando por um defeito mecânico o motor de uma lancha ou besouro deixava de funcionar na Baía do Pontal, curiosamente dizíamos que a lancha ou besouro “deu prego”. Nesse caso, ficávamos a depender do movimento da maré e da habilidade do mestre para que a travessia fosse um sucesso. Muitas vezes os passageiros entravam em pânico, com muitas gritarias, choros e promessas para que tudo se resolvesse. Mas, nunca houve nenhum registro de algum acidente fatal.

As lembranças nos remete ao casal Berlito Sampaio, motorista de uma das lanchas e Meire Bonfim na bilheteria, que depois de um longo período em águas navegadas tornaram-se marido e mulher, estando aí vivos pra contar um pouco desta travessia, às vezes muito perigosa, mas, mesmo assim, ainda nos traz saudades.

Com a inauguração da Ponte (1966), a ligação entre Pontal e o Centro, ficou com as duas opções até 1967. Opções que ao nosso entender deveriam perdurar até hoje. Acreditamos que a cidade ganharia muito com isso, principalmente no aspecto turístico, mas Ilhéus tem dessas coisas, restando nos contentarmos com esta foto de 2007, tendo o mar como lembrança.



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