José Rezende Mendonça
Foto do Vesúvio - 1940 - Fotógrafo desconhecido
Hoje
em dia é muito comentada a chamada "tolerância zero", ligada, em
especial, à cidade de Nova York, quando seu então prefeito Rudolph Giuliani
decidiu que a melhor maneira de evitar infrações maiores é punir, com rigor, a
partir das pequenas.
Embora
coisas aparentemente novas, algumas cidades brasileiras, de pequeno porte,
poderiam servir de exemplo, em casos presentes e mesmo de um passado distante.
O
autor destas linhas abaixo viveu dos quatro aos trinta e um anos (1928-1955),
em Ilhéus, num tempo em que a região sul baiana tinha dimensão nacional, ainda
era afamada pela riqueza do cacau, e, como se sabe, o grande Jorge Amado,
registraria, com a maior competência, a partir dos anos 30 do século passado, a
história, romanceada, dos "frutos de ouro".
Àquele
tempo a população da cidade girou entre 10 mil e 20 mil habitantes, mas Ilhéus,
de há muito, tinha três vice-consulados (Suécia, Noruega e Inglaterra) e já
contava com agência do Banco do Brasil, quando mesmo algumas capitais não a
possuíam.
“Citando”, assim, sem preocupação
histórica, conheci, há meu tempo, intendentes e prefeitos de Ilhéus como
Eusínio Lavigne (que veio com a revolução de 30, ficou sete anos e é, até hoje,
considerado como o administrador de maior visão que Ilhéus já teve) Mário
Pessoa (duas ou três vezes prefeito), Raymundo do Amaral Pacheco, Eunápio
Peltier de Queiroz, todos eles com cursos superiores e integrantes da elite da
terra. Ligava-os, como regra geral, a preocupação de todos com o aspecto da
cidade e eram, podemos dizer partidários da "tolerância zero".
“No Centro da cidade, se alguém,
certamente uma pessoa de fora, deixava cair algum lixo (ponta de cigarro, um
papel amassado) nas ruas Dom Pedro II, Marquês de Paranaguá e outras, estava
sujeito a ser interpelado, educadamente, pelo guarda para recolher "o
lixo". Não raro, cidadãos comuns, da terra, davam esse pito no
"infrator".
“Tais ruas estavam, sempre, limpas.
Bicicletas só circulavam com a competente placa requerida na prefeitura. Lavar
a casa e escorrer a água para a rua sujeitava o infrator a multa e contam que
uma vez o próprio prefeito Mario Pessoa teria sido multado por um guarda, por
tal motivo, ocorrido em sua residência”.
“Vasos de plantas nas janelas? Multa
certa. Os jardins eram sempre muito bem cuidados, as árvores podadas,
artisticamente. Há pouco tempo, comentando tais coisas, um oftalmologista de
Ipanema, Dr. Max, disse que em sua cidade, no Paraná, ao seu tempo, era assim.
Parece que era Apucarana. Lá para as bandas do Sul ainda há o costume de a cada
fim de viagem de ônibus o carro ser varrido”.
“Uma curiosidade: se Jorge Amado fosse
escrever, hoje, sobre o cacau, teria de deixar de lado a referência que tanto
gostava de fazer de "árvore dos frutos de ouro", para falar do
cacaueiro. É que o melhor cacau de hoje, das recentes plantações resistentes à
praga, tem a casca marrom e, por sinal, é muito feio, quando o "fruto de
ouro", justificando a designação, tem belo visual”.
“Uma segunda curiosidade: ao que se
sabem, Ilhéus é uma das duas cidades, em todo o mundo (a outra é na Europa
Oriental) a ter, em jardim público, uma estátua da poetisa Safo”. Dizem “que um
prefeito, nas primeiras décadas do século passado, adquiriu-a, aleatoriamente,
num leilão realizado no Rio”.

Nenhum comentário:
Postar um comentário