O Blog do Pimenta de
Itabuna, publicou no dia 09 próximo passado, a ficha de inscrição de Jorge
Amado na Associação Bahiana de Imprensa, de 1944. Nesta ficha Jorge Amado se
declara filho de Ilhéus, e isso tem causado muito mal estar aos amigos
itabunenses.
Inclusive no espaço sobre
comentários, existem várias declarações de nossos vizinhos como estas: “Esse ilustre cidadão renega a terra onde
nasceu, eu, hein... pra mim a fama dele acaba aí.” – “Não é culpa do povo de
Ilhéus, foi Jorge Amado que preferiu ser cidadão de lá. Na cédula funcional é
bem clara a sua vontade (natural de Ilhéus). Isto porque vários leitores
itabunenses colocaram a culpa em Ilhéus. Outro itabunense comentou: “A pergunta é, por que perder tempo com um
escritor que não estava nem aí com a cidade que nasceu? Politicamente, quando
esse escritor tornou notoriedade, Ilhéus, daria a ele outro destaque. Pobre
escritor! Não era original nem nas suas decisões”. Vejam que este nem fala
o nome de Jorge Amado, trata-o como apenas “esse escritor”.
Percebam que o nosso AMADO
JORGE, não é o mesmo JORGE AMADO para boa parte dos itabunenses.
Não há nenhuma dúvida que Jorge Amado
nasceu em Itabuna, em 1912, portanto dois anos depois que Itabuna se desmembrou
do município de Ilhéus em 1910. O que acontece é que, Jorge Amado veio com 4
anos para Ilhéus, e uma criança de 4 anos não se lembra muito do seu passado.
Aqui em Ilhéus, ele cresceu, estudou
e vivenciou toda uma época dos coronéis. Jorge Amado só deixou Ilhéus quando
tinha 19 anos, isto quer dizer, que sua infância e adolescência foram aqui. Não
foi por acaso, que ele escreveu aquela declaração de amor por Ilhéus, onde ele
dá o título de: “A TERRA DA MINHA VIDA”, ISSO SE REFERINDO A ILHÉUS. Foi uma
decisão dele de ser ilheense, mesmo nascendo em Itabuna.
Este documento publicado no PIMENTA é
mais uma prova disto, ou seja, ele relegava Itabuna, agora não sei por quê.
Ilhéus se aproveitou disto e faz tudo em sua homenagem, é só isto.
Se você é itabunense faça questão de
ler o texto “A TERRA DA MINHA VIDA”, e não terás mais dúvida disto.
Agora, como ilheense nato, adoro
Itabuna e acho que uma cidade completa a outra, e digo mais, ai de nós se não
tivéssemos Itabuna tão próxima, pois seu comércio e sua rede hospitalar/ médica
é invejável em comparação a nossa Ilhéus. E para compensar te oferecemos nossas
praias e vamos viver em paz.
Para quem não conhece o texto
A
Terra da Minha Vida - Jorge Amado, 1997
“Poucas
vezes me senti tão honrado em minha vida como me sinto agora. Aconteceram-me
fatos diversos que levaram a mim e aos meus livros mundo afora. Eles
significaram, antes de tudo, Ilhéus. Não só porque aqui comecei a vivê-los,
porque aqui imaginei a escrevê-los, mas porque a presença de Ilhéus irradiou a
luz especial que ilumina essas minhas pobres páginas.
É de Ilhéus que
nasce o que de mais puro e sensível, o que de mais belo possa ter o que
escrevi. Ilhéus como tema me inspirou, me marcou de forma profunda o que
escrevi de alma e corpo, as coisas que quis dizer em todo o meu trabalho
literário da decorrência de toda a minha vida, onde tantas coisas aconteceram e
acontecem com aspectos tão diferentes e diversos à realidade mais distante e,
por conseqüência, a realidade fundamental em Ilhéus.
Vim prá’qui aos
quatro anos. Aqui transcorreu a minha adolescência, vivi minha infância, corri
nas ruas solto, livre, capaz de amar a liberdade sobre todas as coisas, pois a
primeira lição que recebi desta terra foi a lição de liberdade. Ilhéus não é
apenas uma bela cidade do sul da Bahia, com a tradição de luta, de violência,
de vida espantosamente vivida. Ilhéus é bem diferente, é bem mais que isso. É a
transformação de tudo isso em
criação. E a transformação de tudo isso em viva e translúcida
realidade.
Ilhéus para mim
significa o começo e significa a construção posterior. Quando eu, por acaso,
ponho os olhos naquilo que escrevi eu vejo que Ilhéus está criança e aqui me
fiz homem, aqui me fiz escritor e quando eu quero saudar a verdade de mim
próprio, aquilo que é essência de meu ser, de minha vida, eu penso nessa
cidade, por mais distante que eu possa estar geograficamente das suas praias,
das suas ruas, da sua gente.
Essa cidade me
acompanha. A cada dia eu me revejo nela, a cada dia eu me redescubro nela, a
cada dia eu me sinto mais próximo e fundamental de tudo quanto eu fiz. Eu não
sei se fiz grandes coisas. Algumas eu busquei fazer na minha trajetória de
escritor, algumas verdades busquei dizer , algumas realidades coloquei no
papel. Tomei delas da vida para transformá-las em literatura. Tudo isso se deu
porque vivi nessa cidade. A minha Ilhéus transparece a paixão pelas coisas e
pelos homens, o amor infinito pela vida.
Que dizer mais
dessa cidade? Dizer que a amo de uma forma imensa, infinita. Meu amor por
Ilhéus não tem limites, pois é o amor que vem da meninice, da adolescência, dos
tempos felizes e alegres, dos dias em que eu quis aceitar a verdade Da minha
vida quero ainda dizer que em nenhum momento desses acontecimentos que me
tornaram conhecido, deixei de me lembrar /que
foi aqui onde tudo começou. Foi aqui em ,Ilhéus, na praça do Vesúvio, não foi
noutro lugar.”
Cabe ao poder
público, divulgar o mais breve possível e de forma marcante, esta relíquia que
será eterna. Como sugestão, diríamos que um pedestal, feito por algum artista
local e localizado justamente na Praça do Vesúvio, onde ele mesmo afirma que lá
foi onde tudo começou, seria a forma mais justa homenagem a este itabunense,
mas ilheense de coração. Diríamos também, que já se passaram tanto tempo, e
nada ainda foi feito para eternizar esta carta de Jorge Amado. Ilhéus, que é
uma cidade voltada para o turismo, não pode deixar escapar esta oportunidade,
senão no futuro, seremos cobrados deste lapso de memória.
Rezende
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